Paixão: Bendito o que vem em nome do Senhor (Lucas 19.28-48)

À medida em que nos aproximamos na páscoa, resolvi lançar esta nova série denominada Paixão. A palavra paixão vem do grego πασχω e do latim passio e em ambas línguas significa sofrer. Dessas línguas e significado, a palavra passou para várias línguas significando o sentimento ou emoção muito forte com respeito a uma pessoa. Quando falamos da “paixão de Cristo” estamos nos referindo ao seu sofrimento, especificamente à sua última semana de vida e morte.

O evangelho de Lucas dá grande ênfase à paixão de Jesus Cristo. Depois de uma introdução em que apresenta João Batista e Jesus (1.5-4.14), Lucas narra o ministério de Jesus na Galiléia (4.14-9.50), apresentando, em seguida, esse importante versículo de transição: “E aconteceu que, ao se completarem os dias em que devia ele ser assunto ao céu, manifestou, no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém” (Lucas 9.51). Em certo sentido, esse versículo introduz a paixão no evangelho de Lucas. A partir dele, Jesus começa uma longa e lenta caminhada em direção a Jerusalém (9.51-19.28), onde ele se deixará sacrificar pelos seus amados. Depois da longa viagem, Jesus chega em Jerusalém (19.29-24.53), onde vive seus últimos dias, morre e ressuscita. O nosso foco nos próximos posts serão esses últimos dias de Jesus.

 

Entrada em Jerusalém, Hippolyte Flandrin, 1842

 

O Rei está chegando, finalmente, o rei está chegando!

 

28 E, dito isto, prosseguia Jesus subindo para Jerusalém. 29 Ora, aconteceu que, ao aproximar-se de Betfagé e de Betânia, junto ao monte das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, 30 dizendo-lhes: Ide à aldeia fronteira e ali, ao entrardes, achareis preso um jumentinho que jamais homem algum montou; soltai-o e trazei-o. 31 Se alguém vos perguntar: Por que o soltais? Respondereis assim: Porque o Senhor precisa dele. 32 E, indo os que foram mandados, acharam segundo lhes dissera Jesus. 33 Quando eles estavam soltando o jumentinho, seus donos lhes disseram: Por que o soltais? 34 Responderam: Porque o Senhor precisa dele. 35 Então, o trouxeram e, pondo as suas vestes sobre ele, ajudaram Jesus a montar. 36 Indo ele, estendiam no caminho as suas vestes. 37 E, quando se aproximava da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos passou, jubilosa, a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinham visto, 38 dizendo: Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas! 39 Ora, alguns dos fariseus lhe disseram em meio à multidão: Mestre, repreende os teus discípulos! 40 Mas ele lhes respondeu: Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão.

 

Jesus está bem próximo de Jerusalém. Ele quer entrar em Jerusalém de forma que o seu papel como rei fique claro a todos. Ele entre da mesma forma que Salomão entrou: “Disse o rei Davi: Chamai-me Zadoque, o sacerdote, e Natã, o profeta, e Benaia, filho de Joiada. E eles se apresentaram ao rei. 33 Disse-lhes o rei: Tomai convosco os servos de vosso senhor, e fazei montar meu filho Salomão na minha mula, e levai-o a Giom”. (1 Reis 1.32-33). Ainda mais importante do que a entrada de Salomão, Zacarias profetizou sobre a vinda do Messias e anunciou a sua chegada com a seguinte imagem: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até às extremidades da terra” (Zacarias 9.9-10).

 

Assim, quando Jesus ordena com relação ao jumentinho, ele não está simplesmente demonstrando o seu poder e soberania totais até mesmo sobre os menores detalhes daquilo que acontece na terra, mas ele está preparando a sua chegada triunfal como o grande rei esperado por todos. Esse era o grande momento do cumprimento das profecias, o Messias Davídico chegou e está pronto para assumir o seu trono!

 

Os discípulos de Jesus (não apenas os 12) iam colocando as suas vestes (capas exteriores) para que Jesus passasse por sobre elas. Era como se um tapete vermelho estivesse sendo colocado diante dele. E como se não bastasse, a multidão, reconhecendo os muitos milgares que Jesus fazia, começa a cantar o Salmo 118. Esse era um salmo cantado na páscoa judaica e que agora é cantado considerando Jesus como o seu cumprimento máximo. Note como alguns versículos desse salmo ganham um significado totalmente novo quando pensamos em seu cumprimento em Jesus Cristo:

 

17  Não morrerei; antes, viverei

e contarei as obras do Senhor.

18  O Senhor me castigou severamente,

mas não me entregou à morte.

19  Abri-me as portas da justiça;

entrarei por elas e renderei graças ao Senhor.

20  Esta é a porta do Senhor;

por ela entrarão os justos.

21  Render-te-ei graças porque me acudiste

e foste a minha salvação.

22  A pedra que os construtores rejeitaram,

essa veio a ser a principal pedra, angular;

23  isto procede do Senhor

e é maravilhoso aos nossos olhos.

24  Este é o dia que o Senhor fez;

regozijemo-nos e alegremo-nos nele.

25  Oh! Salva-nos, Senhor, nós te pedimos;

oh! Senhor, concede-nos prosperidade!

26  Bendito o que vem em nome do Senhor.

A vós outros da Casa do Senhor, nós vos abençoamos.

 

 

Os fariseus presentes ficam profundamente incomodados com o reconhecimento que a multidão está dando a Jesus Cristo, e ordenam que Jesus os faça parar. Novamente demonstrando o seu senhorio sobre todas as circunstâncias, até mesmo sobre as coisas inanimadas, Jesus diz: “Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão”.

 

Enrique Simonet – Flevit super illam – 1892

 

O Rei Jesus Cristo chora o destino de Jerusalém

 

41 Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou 42 e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. 43 Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; 44 e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação.

 

Assim como os textos aludidos por Lucas, no entanto, a entrada do Rei não seria totalmente pacífica, mas causaria sofrimento tanto para ele mesmo quanto, no devido tempo, para a cidade de Jerusalém. O que Jesus, chorando, anuncia aqui, não era uma novidade completa, mas era um segundo cumprimento das maldições resultantes da desobediência do povo. O profeta Zacarias também havia anunciado essa mesma tragédia em Zacarias 14.1-7.[1] O que Jesus anunciou aqui se cumpriu com detalhes em 70 d.C., quando o exército romano invadiu e destruiu Jerusalém e o templo.

 

O que me chama a atenção aqui nesse texto é que Jesus atribui o fatídico destino de Jerusalém ao fato de que eles não reconheceram a oportunidade dada por Deus. O próprio Deus estava visitando a cidade em Cristo Jesus, mas ele não foi aceito nem recebido como o Messias, filho de Davi. Aquilo que era necessário ser feito para que a paz fosse alcançada (paz com Deus, paz entre os judeus e outros povos, paz entre os homens) estava oculto aos olhos dos judeus naquela geração.

 

 

O Rei Jesus purifica o templo

 

45 Depois, entrando no templo, expulsou os que ali vendiam, 46 dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa será casa de oração. Mas vós a transformastes em covil de salteadores. 47 Diariamente, Jesus ensinava no templo; mas os principais sacerdotes, os escribas e os maiorais do povo procuravam eliminá-lo; 48 contudo, não atinavam em como fazê-lo, porque todo o povo, ao ouvi-lo, ficava dominado por ele.

 

Ao entrar em Jerusalém, Jesus não vai para um palácio, mas vai para o templo. Ali, ele encontra pessoas vendendo animais para os sacrifícios e expulsa a todos. Jesus cita Isaías 56.7[2] que afirma que o templo deveria ser casa de oração, mas que o povo a havia transformado em um “esconderijo de ladrões” (NLTH), citando dessa vez Jeremias 7.[3]

 

Reações diversas com relação ao Rei Jesus

 

Assim como aconteceu com todos os profetas ao longo da história bíblica, a pessoa e as palavras de Jesus causavam as mais diferentes reações:

  • Sacerdotes, escribas e maiorais do povo: querem eliminá-lo (19.47)
  • Povo: fica dominado por Jesus (19.48), mas são os mesmos que gritarão: crucifica-o.
  • Fariseus: querem atrapalhar outros de reconhecer o senhorio do Rei (19.39)
  • Os discípulos: submetem-se, servem, honram e dizem: “Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas” (19.28-38)

 

Qual é a tua reação com relação ao rei Jesus?

 

 

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[1] 1 Eis que vem o Dia do Senhor, em que os teus despojos se repartirão no meio de ti. 2 Porque eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada, e as casas serão saqueadas, e as mulheres, forçadas; metade da cidade sairá para o cativeiro, mas o restante do povo não será expulso da cidade. 3 Então, sairá o Senhor e pelejará contra essas nações, como pelejou no dia da batalha. 4 Naquele dia, estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; o monte das Oliveiras será fendido pelo meio, para o oriente e para o ocidente, e haverá um vale muito grande; metade do monte se apartará para o norte, e a outra metade, para o sul. 5 Fugireis pelo vale dos meus montes, porque o vale dos montes chegará até Azal; sim, fugireis como fugistes do terremoto nos dias de Uzias, rei de Judá; então, virá o Senhor, meu Deus, e todos os santos, com ele. 6 Acontecerá, naquele dia, que não haverá luz, mas frio e gelo. 7 Mas será um dia singular conhecido do Senhor; não será nem dia nem noite, mas haverá luz à tarde. (Zacarias 14.1-7)

[2]  6 Aos estrangeiros que se chegam ao Senhor, para o servirem e para amarem o nome do Senhor, sendo deste modo servos seus, sim, todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança, 7 também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos. 8 Assim diz o Senhor Deus, que congrega os dispersos de Israel: Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos. (Isaías 56.6-8)

[3] 8 Eis que vós confiais em palavras falsas, que para nada vos aproveitam. 9 Que é isso? Furtais e matais, cometeis adultério e jurais falsamente, queimais incenso a Baal e andais após outros deuses que não conheceis, 10 e depois vindes, e vos pondes diante de mim nesta casa que se chama pelo meu nome, e dizeis: Estamos salvos; sim, só para continuardes a praticar estas abominações! 11 Será esta casa que se chama pelo meu nome um covil de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o Senhor. (Jeremias 7.8-11)

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