Sexo Santo e de Verdade: Um Passeio pelo Cântico dos Cânticos

                Um dia desses estava conversando com uma pessoa que me disse que seu filho de 10 anos não suporta a palavra sexo, mas aceita que se fale a respeito de cópula de animais e de seres humanos. Eu o entendo. Em nossa sociedade, como em muitas outras em muitos outros tempos, o sexo é abusado, comercializado e profanado. Somos bombardeados com imagens, vozes, danças, roupas, filmes e livros que tratam do sexo como coisa suja e, sem perceber, o vemos assim. Alguns não conseguem conceber um casal lendo a Bíblia e orando antes ou depois de fazerem sexo. Deus, no entanto, não nos deixou à deriva nessa área tão importante da vida, mas fez escrever um livro na Bíblia que celebra a beleza e pureza do sexo no contexto correto. “Cantares apresenta a sexualidade como uma coisa boa protegida pelo casamento e não como uma coisa má permitida pelo casamento”.[1]

O livro de Cantares, ou Cântico dos Cânticos, é um dos livros de sabedoria da Bíblia. Ligado a Salomão, o livro apresenta de forma pictórica e clara as delícias de um casamento em que há amor verdadeiro e onde a sensualidade é nutrida e usufruída por um casal apaixonado. “A mensagem do livro é que os prazeres mútuos do amor são bons e possíveis mesmo nesse mundo caído. O Cânticos dos Cânticos é um testemunho da graça de Deus e uma rejeição tanto do ascetismo quanto da devassidão”.[2]

Diferente da igreja em geral, em vez de se calar a respeito do sexo, a estratégia que a Bíblia usa para ensinar os jovens a respeito de se guardarem para o casamento é falar abertamente sobre as delícias do sexo puro, ao ponto de motivá-los a não quererem profaná-lo. Apesar do livro ser ligado a Salomão, um polígamo, o livro é uma ode ao casamento monogâmico. Isso não nos deve admirar, pois outro livro ligado a Salomão nos diz: “Desfrute a vida com a mulher a quem você ama.” (Eclesiastes 9.9).

Por causa da abundância de metáforas, muito de Cantares é obscuro para os seus leitores.[3] O assunto e a tese geral, entretanto, não ficam ocultos. O’Donnell mostra que a paixão relatada no livro acontece claramente no contexto de um casamento[4] e afirma que a audiência primária do livro eram as moças de Jerusalém, sendo ensinadas a esperar para ter intimidade sexual: “não despertem nem provoquem o amor enquanto ele não o quiser.[5](Ct 2.7; 3.5; 8.4, NVI).

 

Nosso objetivo aqui é apresentarmos de maneira básica algumas lições gerais que esse livro tem a nos oferecer:

 

1 O sexo no contexto correto é puro e delicioso

 

Ela

Ele

1.2 Ah, se ele me beijasse,
se a sua boca me cobrisse de beijos …Sim, as suas carícias são mais agradáveis
que o vinho.
3 A fragrância dos seus perfumes é suave;
o seu nome é como perfume derramado.
Não é à toa que as jovens o amam!
4 Leve-me com você! Vamos depressa!Leve-me o rei para os seus aposentos!
4.1 Como você é linda, minha querida!
Ah, como é linda!
Seus olhos, por trás do véu, são pombas.
Seu cabelo é como um rebanho de cabras
que vêm descendo do monte Gileade.
Seus dentes são como um
rebanho de ovelhas recém-tosquiadas
que vão subindo do lavadouro.
Cada uma tem o seu par;
não há nenhuma sem crias.
Seus lábios são como um fio vermelho;
sua boca é belíssima.
Suas faces, por trás do véu,
são como as metades de uma romã.
Seu pescoço é como a torre de Davi,
construída como arsenal.
Nela estão pendurados mil escudos,
todos eles escudos de heróicos guerreiros.
Seus dois seios são como filhotes de cervo,
como filhotes gêmeos de uma gazela
que repousam entre os lírios.
Enquanto não raia o dia
e as sombras não fogem,
irei à montanha da mirra
e à colina do incenso.
Você é toda linda, minha querida;
em você não há defeito algum.Venha do Líbano comigo, minha noiva,
venha do Líbano comigo.
Desça do alto do Amana,
do topo do Senir, do alto do Hermom,
das covas dos leões
e das tocas dos leopardos nas montanhas.
Você fez disparar o meu coração,
minha irmã, minha noiva;
fez disparar o meu coração
com um simples olhar,
com uma simples jóia dos seus colares.
10 Quão deliciosas são as suas carícias,
minha irmã, minha noiva!
Suas carícias são mais agradáveis
que o vinho,
e a fragrância do seu perfume
supera o de qualquer especiaria!
11 Os seus lábios gotejam a doçura
dos favos de mel, minha noiva;
leite e mel estão debaixo da sua língua.
A fragrância das suas vestes
é como a fragrância do Líbano.
12 Você é um jardim fechado,
minha irmã, minha noiva;
você é uma nascente fechada,
uma fonte selada.
13 De você brota um pomar de romãs
com frutos seletos,
com flores de hena e nardo,
14 nardo e açafrão, cálamo e canela,
com todas as madeiras aromáticas,
mirra e aloés e as mais finas especiarias.
15 Você é uma fonte de jardim,
um poço de águas vivas,
que descem do Líbano.
1.12 Enquanto o rei estava em seus aposentos,
o meu nardo espalhou sua fragrância.
13 O meu amado é para mim
como uma pequenina bolsa de mirra
que passa a noite entre os meus seios.
14 O meu amado é para mim
um ramalhete de flores de hena
das vinhas de En-Gedi.
  1. Como uma macieira entre
    as árvores da floresta
    é o meu amado entre os jovens.
    Tenho prazer em sentar-me
    à sua sombra;
    o seu fruto é doce ao meu paladar.
    Ele me levou ao salão de banquetes,
    e o seu estandarte sobre mim é o amor.
    Por favor, sustentem-me com passas,
    revigorem-me com maçãs,
    pois estou doente de amor.
    O seu braço esquerdo
    esteja debaixo da minha cabeça,
    e o seu braço direito me abrace.
Mal havia passado por elas,
quando encontrei aquele a quem
o meu coração ama.
Eu o segurei e não o deixei ir,
até que o trouxe
para a casa de minha mãe,
para o quarto daquela que me concebeu.
4.16 Acorde, vento norte!
Venha, vento sul!
Soprem em meu jardim,
para que a sua fragrância
se espalhe ao seu redor.
Que o meu amado entre em seu jardim
e saboreie os seus deliciosos frutos.
6.2 O meu amado desceu ao seu jardim,
aos canteiros de especiarias,
para descansar
e colher lírios.
Eu sou do meu amado,
e o meu amado é meu;
ele descansa entre os lírios. 
5.1 Entrei em meu jardim,
minha irmã, minha noiva;
ajuntei a minha mirra com
as minhas especiarias.
Comi o meu favo e o meu mel;
bebi o meu vinho e o meu leite.Coro:Comam, amigos,
bebam quanto puderem, ó amados! 
7.9 … vinho que flui suavemente
para o meu amado,
escorrendo suavemente sobre os lábios
de quem já vai adormecendo.
10 Eu pertenço ao meu amado,
e ele me deseja.
11 Venha, meu amado,
vamos fugir para o campo,
passemos a noite nos povoados.
12 Vamos cedo para as vinhas
para ver se as videiras brotaram,
se as suas flores se abriram
e se as romãs estão em flor;
ali eu lhe darei o meu amor.
13 As mandrágoras exalam o seu perfume,
e à nossa porta há todo tipo de frutos finos,
secos e frescos,
que reservei para você, meu amado.
7.1 Como são lindos
os seus pés calçados com sandálias,
ó filha do príncipe!
As curvas das suas coxas são como jóias,
obra das mãos de um artífice.
Seu umbigo é uma taça redonda
onde nunca falta o vinho
de boa mistura.
Sua cintura é um monte de trigo
cercado de lírios.
Seus seios são como
dois filhotes de corça,
gêmeos de uma gazela.
Seu pescoço é como
uma torre de marfim.
Seus olhos são como
os açudes de Hesbom,
junto à porta de Bate-Rabim.
Seu nariz é como a torre do Líbano
voltada para Damasco.
Sua cabeça eleva-se
como o monte Carmelo.
Seus cabelos soltos
têm reflexos de púrpura;
o rei caiu prisioneiro das suas ondas.
Como você é linda!
Como você me agrada!
Oh, o amor e suas delícias!
Seu porte é como o da palmeira,
e os seus seios como cachos de frutos.
Eu disse: Subirei a palmeira
e me apossarei dos seus frutos.
Sejam os seus seios
como os cachos da videira,
o aroma da sua respiração como maçãs,
e a sua boca como o melhor vinho …
8.1 Ah, quem dera você fosse meu irmão,
amamentado nos seios de minha mãe!
Então, se eu o encontrasse fora de casa,
eu o beijaria,
e ninguém me desprezaria.
Eu o conduziria
e o traria à casa de minha mãe,
e você me ensinaria.
Eu lhe daria vinho aromatizado
para beber,
o néctar das minhas romãs.
O seu braço esquerdo esteja debaixo
da minha cabeça
e o seu braço direito me abrace.
8.14 Venha depressa, meu amado,
e seja como uma gazela,
ou como um cervo novo
saltando sobre os montes
cobertos de especiarias.
 

 

 

Certamente esses textos deixam o ponto claro o suficiente. O sexo não é sujo em si mesmo. Sexo não é um mal necessário. Deus não criou o sexo apenas para a reprodução, mas claramente para o nosso deleite e prazer. O sexo santo é apaixonado, de fazer desfalecer, alegre, cheio de vida, elogioso, sensual, reparador, carinhoso, cheio de expectativas, doce e delicioso. É um sexo que ocorre dentro do contexto ensinado em Hebreus: “O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros.” (Hebreus 13.4). É um sexo que relembra o paraíso, onde Adão fazia poesia enfatizando a anatomia complementar de macho e fêmea (Gn 2.23) e ambos estavam nus e não se envergonhavam (Gn 2.25). O sexo celebrado na Bíblia com O Cântico, é um sexo dentro do contexto de um casamento alegre e abençoado por Deus, afinal o texto está na Bíblia, a palavra de Deus.

 

Em uma sociedade onde a sensualidade é usada para vender coisas, onde o sexo apresentado como aquele que mais satisfaz é o sexo fora do casamento e onde até as crianças são sexualizadas por meio de desenhos, músicas e moda, é tempo dos cristãos levantarem a bandeira da possibilidade de um sexo sem culpa e motivos de vergonha. O sexo entre um homem e uma mulher unidos pelo casamento.

 

Maridos e esposas, aproveitem um ao outro. Curtam a santa bênção do sexo. Elogiem-se. Construam fora da cama uma amizade e intimidade que lhes permita viver essas delícias em cima da cama. Não baixem a guarda sequer pensando que o sexo adúltero, pornográfico e em tons de cinza possam se comparar em satisfação ao sexo de Cânticos dos Cânticos.

 

(a continuar)

 

Publicado originalmente em portugues.logos.com

Referências

(Consultadas no Software Bíblico Logos)

 

[1] Duane A. Garrett, Proverbs, Ecclesiastes, Song of songs (vol. 14; The New American Commentary; Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993), 378. While the marriage relationship is meant to be a partnership and friendship on the deepest level, that does not mean that the sexual and emotional aspects of love between a man and a woman are themselves unworthy of the Bible’s attention. Sexuality and love are fundamental to the human experience; and it is altogether fitting that the Bible, as a book meant to teach the reader how to live a happy and good life, should have something to say in this area. …Love and sexuality can be a source of great joy or deep grief and pain. As children become adults and discover their sexuality, and as couples move into marriage and seek to understand each other, it is imperative that they have guidance in this area of life that is so crucial to psychological adjustment. The Bible itself would be incomplete if it only spoke of sexuality in terms of prohibitions and did not give positive instruction to enable the reader to discover the joy of healthy love. Duane A. Garrett, Proverbs, Ecclesiastes, Song of songs (vol. 14; The New American Commentary; Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993), 366-367.

[2] Duane A. Garrett, Proverbs, Ecclesiastes, Song of songs (vol. 14; The New American Commentary; Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993), 380.

[3]The Song is the most obscure book of the Old Testament. Whatever principle of interpretation one may adopt, there always remains a number of inexplicable passages, and just such as, if we understood them, would help to solve the mystery.Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch, Commentary on the Old Testament (vol. 6; Peabody, MA: Hendrickson, 1996), 497. We cannot understand the Song of Songs unless we perceive that it presents before us not only Shulamith’s external attractions, but also all the virtues which make her the idea of all that is gentlest and noblest in woman. Her words and her silence, her doing and suffering, her enjoyment and self-denial, her conduct as betrothed, as a bride, and as a wife, her behaviour towards her mother, her younger sister, and her brothers,—all this gives the impression of a beautiful soul in a body formed as it were from the dust of flowers. Solomon raises this child to the rank of queen, and becomes beside this queen as a child. The simple one teaches the wise man simplicity; the humble draws the king down to her level; the pure accustoms the impetuous to self-restraint. Following her, he willingly exchanges the bustle and the outward splendour of court life for rural simplicity, wanders gladly over mountain and meadow if he has only her; with her he is content to live in a lowly cottage. The erotic external side of the poem has thus an ethical background. We have here no “song of loves” (Ezek. 33:32) having reference to sensual gratification. The rabbinical proverb is right when it utters its threat against him who would treat this Song, or even a single verse of it, as a piece of secular literature. The Song transfigures natural but holy love.Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch, Commentary on the Old Testament (vol. 6; Peabody, MA: Hendrickson, 1996), 500.

[4]After the word “wedding” is used in 3:11 (as the wedding day of Solomon is used as a foil), the word “bride” is used of the young woman six times in the next seventeen verses (chs. 4–5). This is the heart of the Song, the section that undoubtedly describes sexual relations. Further support for this marriage-song thesis is found in the language of a permanent pledge, such as “set me as a seal upon your heart” (8:6) or “my beloved is mine, and I am his” (2:16a; cf. 7:5; 8:4). Douglas Sean O’Donnell, “The Earth Is Crammed with Heaven: Four Guideposts to Reading and Teaching the Song of Songs”, Themelios: Volume 37, No. 1, April 2012 ([s.d.]): 23.

[5] The primary target audience is the unmarried, specifically single young women, “the daughters of Jerusalem.” Thrice the refrain begins, “I adjure you, O daughters of Jerusalem.” These “daughters” are the “virgins” mentioned in 1:3 or the “young women” in 2:2. They might be viewed as “bridesmaids,” but they certainly should be understood as young Israelite women (of Jerusalem—Israel’s city girls and “local lasses”). It addresses women of marriageable age, whose bodies are ripe for sexual love, who desire marital intimacy, but are still unmarried. These girls are admonished to wait for sexual intimacy. Their bodies are saying “yes.” Their instincts for intimacy are saying “yes.” Their suitors might even be saying “yes” (or at least “please”). But they are admonished to say, “no.” The wisdom message to these young women is to wait. Virgins, stay virgins (!) … not forever, but for now. Wait for marriage. That is wisdom. That is the simple wisdom in this complex book. Now notice how Solomon artistically does this. The admonition does not come through the voice of a celibate prophet, a learned rabbi, a stern sage, or even a father or mother (as common in the Wisdom Literature), but through the voice of a newlywed—the bride, a former daughter of Jerusalem herself, one of their peers. This is a book about peer pressure at its biblical best! Yes, the protagonist in this poem is a young bride. And this newly married woman comes out of her wedding chamber, love scene after love scene, to tell the young ladies, “Wait for this—what I’m enjoying. It’s worth it. Cool your passions now, and arouse them later, when it’s time.” The daughters of Jerusalem who hover around this “poetic drama” (they seem never to leave the scene) are the key to understanding the purpose of this whole wisdom poem.Douglas Sean O’Donnell, “The Earth Is Crammed with Heaven: Four Guideposts to Reading and Teaching the Song of Songs”, Themelios: Volume 37, No. 1, April 2012 ([s.d.]): 29–30.

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