Deus não foi duro demais com Moisés? (Números 20.1-13 e Deuteronômio 3.24-28)

moses-on-mount-neboUma das histórias mais chocantes da Bíblia é a da punição de Moisés. O povo que saíra do Egito estava com sede e começou novamente a reclamar de Moisés e Arão, expressando que era preferível terem ficado no Egito como escravos (Números 20.2-5). Moisés e Arão imediatamente se prostraram diante de Deus clamando por sua misericórdia sobre o povo e por uma solução para o problema. Deus respondeu e disse: “falai à rocha, e dará a sua água; assim lhe tirareis água da rocha e dareis a beber à congregação e aos seus animais“. (Números 20.8).

Note que Deus mandou Moisés falar à rocha, diferente do que aconteceu no evento anterior quando Deus mandou Moisés ferir a rocha (Êxodo 17.6-7). Moisés, no entanto, estava cansado da ingratidão e incredulidade recorrentes do povo. Assim, em vez de falar à rocha, a reação de Moisés foi a seguinte:

Ouvi, agora, rebeldes: porventura, faremos sair água desta rocha para vós outros? Moisés levantou a mão e feriu a rocha duas vezes com o seu bordão, e saíram muitas águas; e bebeu a congregação e os seus animais. (Números 20.10-11).

É possível dizer que Moisés estava cansado, frustrado, estressado e ‘burned out’. A leitura que o próprio Deus fez da reação de Moises, entretanto, foi:

Visto que não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso, não fareis entrar este povo na terra que lhe dei (Números 20.12).

Deus explicou a atitude de Moisés como incredulidade e deixar de santificar a Deus diante do povo. Assim, por causa desse pecado, Moisés foi proibido de entrar na terra prometida. Mais à frente, no mesmo livro, Deus explica novamente o por quê Moisés morreria antes de entrar na terra prometida: “porquanto, no deserto de Zim, na contenda da congregação, fostes rebeldes ao meu mandado de me santificar nas águas diante dos seus olhos.” (Números 27.14). É possível dizer que o povo foi responsável em alguma medida pelo pecado de Moisés, como o próprio Moisés diz (Deuteronônio 1.37), mas Deus puniu Moisés pela própria culpa deste. Não havia desculpas.[1] No final de Deuteronômio, mais uma vez Deus afirma a Moisés a razão de sua morte:

Sobe a este monte de Abarim, ao monte Nebo, que está na terra de Moabe, defronte de Jericó, e vê a terra de Canaã, que aos filhos de Israel dou em possessão. E morrerás no monte, ao qual terás subido, e te recolherás ao teu povo, como Arão, teu irmão, morreu no monte Hor e se recolheu ao seu povo,  porquanto prevaricastes [fostes infiéis, NTLH] contra mim no meio dos filhos de Israel, nas águas de Meribá de Cades, no deserto de Zim, pois me não santificastes no meio dos filhos de Israel. (Deuteronômio 32.49-51)

Finalmente, após 40 anos de peregrinação o povo estava às margens do rio Jordão, pronto para entrar na Terra Prometida. Moisés resolveu pedir mais uma vez que Deus reconsiderasse o seu caso:

Também eu, nesse tempo, implorei graça ao SENHOR, dizendo: Ó Senhor Deus! Passaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a tua poderosa mão; porque que deus há, nos céus ou na terra, que possa fazer segundo as tuas obras, segundo os teus poderosos feitos? Rogo-te que me deixes passar, para que eu veja esta boa terra que está dalém do Jordão, esta boa região montanhosa e o Líbano. (Deuteronômio 3.23-25).

A reação e resposta de Deus, no entanto, foram de assustar: “Porém o Senhor indignou-se muito contra mim, por vossa causa, e não me ouviu; antes, me disse: Basta! Não me fales mais nisto.” (Deuteronômio 3.26). O mesmo Moisés que foi escolhido e preparado por Deus para esse trabalho, que foi instrumento de Deus para realizar alguns dos atos mais poderosos de Deus na história, que guiou o povo por 40 anos no deserto aguentando sua rebeldia e dureza de coração; o Moisés que viu a glória de Deus e que clamou algumas vezes pelo povo até mesmo colocando em detrimento de si próprio e foi ouvido de maneira impressionante; este Moisés, quando clamou por graça por si mesmo, não foi ouvido! Não parece injusto?

O que podemos aprender com essa história? Penso em quatro lições, pelo menos:

  1. A reação quase universal de sentir que Deus está sendo injusto e/ou duro demais com Moisés é causada por uma concepção errada que temos de Deus e do pecado. Qualquer pecado é sempre muito grave e digno de punição eterna. Deus, que é totalmente santo, não foi duro demais com Moisés. O pecado de Moisés foi grave e Deus resolveu tratá-lo assim, até para o aprendizado de todo o seu povo.
  2. Aprendemos com essa história também que os nossos pecados, embora perdoados por Deus, podem trazer consequências graves para a nossa vida. Por causa de um pecado, podemos deixar de chegar a um lugar onde chegaríamos e podemos não nos desenvolver como desenvolveríamos sem aquela atitude e decisão errada. Pecados podem ter consequências para o resto da vida e podem até mesmo causar a morte, mesmo se formos cristãos tão bons quanto Moisés!!
  3. Se você tem uma posição de liderança, saiba que os seus pecados serão tratados com maior rigor. O mesmo Deus que chama e capacita é o Deus que nos manda santificar o nome dele diante do povo e pode nos punir duramente quando não fizermos isso.
  4. Apesar da dura punição sofrida por Moisés, ele não perdeu a sua salvação. Moisés viu a terra prometida de longe (Deuteronômio 3.27) e pode fortalecer Josué para a conquista (Deuteronômio 3.28). Além de ser recolhido por Deus (Deuteronômio 34.5-7; Judas 9), muitos anos depois de sua morte Moisés pode entrar na terra prometida e pode conversar com o próprio Jesus Cristo (Mateus 17.1-8). Além disso, um dia Moisés ressuscitará para viver na verdadeira terra prometida e no descanso do reino de Jesus Cristo.

Assim, conheçamos a Deus, lembrando de atributos como sua imensidão, santidade e ira justa contra o pecado. Embora seja fora de moda, busquemos desenvolver um santo temor (medo) de Deus que nos ajude a vencer as tentações. Lutemos ferrenhamente contra os nossos pecados, mesmo contra aqueles que parecem mais inofensivos. Finalmente, em uma época em que só se fala do amor e da graça de Deus, cuidarmos para não abusar da graça nem baratearmos aquilo que foi conquistado para nós pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz.

 

 

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[1] Existe um aspecto em que o pecado de Moisés é agravado, pois, como diz o Novo Testamento, aquela rocha era Cristo (1 Coríntios 10.3-5). Alguns judeus do período intertestamentário acreditavam que a rocha foi uma manifestação especial de Deus que acompanhou o povo durante a sua peregrinação no deserto.

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