Qual música é boa para o louvor de Deus?

(João Paulo Thomaz de Aquino)

 

A Confissão de Fé de Westminster, após falar sobre a suficiência das Escrituras, reconhece “que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas” (1.6). Aplicando essa afirmação à música cristã teríamos o seguinte: Deus prescreveu que ele deve ser louvado por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais (Colossenses 3.16), mas não prescreveu o ritmo, nem os instrumentos a serem usados; estes foram deixados para serem escolhidos pela luz da natureza e a prudência cristã. Mesmo nessa escolha de ritmos e instrumentos, entretanto, temos que observar algumas regras básicas. O objetivo desse escrito é apresentar cinco regras básicas da Escritura que devem ser observadas no momento de compor, cantar ou tocar para o louvor de Deus.

 

1. ADORAÇÃO EM ESPÍRITO E EM VERDADEMas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. (João 4.23-24). Essa tem sido a regra básica da adoração cristã: “em espírito e em verdade”. O problema é que o texto bíblico tem algumas possibilidades de interpretação. Alguns afirmam que adorar em espírito e em verdade significa fazê-lo com emoções e com razão, respectivamente. Outros afirmam que o que o texto tem em vista é afirmar que o culto deve ser feito com a ajuda do Espírito Santo e pautado pela palavra de Deus. Parece-me que uma leitura do texto, entretanto, aponta para duas características. Espírito como aquilo que é oposto a “fisicalidade” e verdade como aquilo que é oposto a mentira. Os dois problemas que Jesus quer resolver com aquela mulher são a sua crença de que é em Gerizim o local onde se deve adorar e seu problema de achar-se em condição de adorar e de discutir sobre adoração mesmo tendo uma vida pessoal caracterizada pelo pecado. Assim, ao dizer àquela mulher que a adoração verdadeira é em espírito e em verdade, Jesus está ensinando a ela que a verdadeira adoração não depende do local, e que tal adoração tem como prerrogativa uma vida santa.

 

2. COM O ESPÍRITO E COM A MENTEQue farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente. (1 Coríntios 14.15). Não há grandes problemas para entender esse texto. Espírito e mente aparecem como características distintas e complementares, apontando para emoções (espírito) e razão (mente). Note que esse texto afirma que tanto a oração quanto o cantar devem ser feitos com emoções e com a razão (vale a pena ler todo o capítulo em 1 Coríntios), com lágrimas e com entendimento, com alegria exultante e compreensão profunda de quem é o Deus que louvamos. Se um desses dois aspectos estiver faltando, a performance ou a letra não resultam na glória de Deus. Portanto, devemos evitar cânticos repetitivos que visam (como um mantra) elevar nossos sentimentos e anular nossa razão, da mesma forma que devemos evitar (ou explicar) hinos ou cânticos cheios de palavras que ninguém entende.

 

3. MÚSICA DE BOA QUALIDADEExultai, ó justos, no SENHOR! Aos retos fica bem louvá-lo. Celebrai o SENHOR com harpa, louvai -o com cânticos no saltério de dez cordas. Entoai-lhe novo cântico, tangei com arte e com júbilo. (Salmo 33.1-3). Uma terceira regra a ser observada no cantar e no tocar em louvor a Deus é que devemos fazer com arte. Infelizmente estamos cheios de música evangélica sem a mínima qualidade. Julga-se que basta ter alguma “inspiração”, sem nunca ter estudado música, para compor. Muitas vezes os músicos não querem aprender mais e a igreja não investe nessa área. Deus exige música com arte e não se agrada de “qualquer musiquinha de três posições”. Os judeus faziam música tão bem para Deus que eram reconhecidos internacionalmente por isso (Salmo 137.1-3). J. S. Bach através de labor (e não só de inspiração) compunha verdadeiras obras de arte e o fazia para o louvor de Deus no culto do domingo seguinte (Vd Maestro Parcival Módolo: Música: Explicatio Textus, Prædicatio Sonora (http://www.geocities.com/prgb_2000/musica.htm) e Música Tripartida: Herança do Século Dezenove (http://www.geocities.com/prgb_2000/musica1.htm)).

 

4. MÚSICA QUE NASCE DA EXPERIÊNCIA PESSOAL COM DEUSCantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem. (Salmos 13:6) A ti, força minha, cantarei louvores, porque Deus é meu alto refúgio, é o Deus da minha misericórdia. (Salmos 59:17). Note nos textos citados que o próprio salmista nos informa quais eram os motivos que o levavam a cantar para o louvor de Deus. Perceba a repetição de pronomes possessivos e de 1ª pessoa. O salmista compunha e cantava porquanto tinha experiência de Deus ser o seu Deus, o seu libertador, o seu refúgio. O salmista tinha comunhão pessoal com Deus. Compositores, líderes musicais e cristãos em geral devem cantar àquele a quem conhecem pessoalmente. Devemos elogiar a Deus em forma de música por conhecer o amor e a misericórdia de Deus, por já termos nos refugiado debaixo de suas asas, por termos sido lavados pelo sangue de Cristo.

 

5. CANTAR PARA DEUS E NÃO PARA HOMENSCelebrar-te-ei, pois, entre as nações, ó SENHOR, e cantarei louvores ao teu nome. (2 Samuel 22.50) Cantarei para sempre as tuas misericórdias, ó SENHOR; os meus lábios proclamarão a todas as gerações a tua fidelidade. (Salmos 89:1) Cantarei a bondade e a justiça; a ti, SENHOR, cantarei. (Salmos 101:1). Vemos nesses textos que os cânticos de louvor devem ser direcionados a Deus e não aos homens, parece algo muito conhecido, mas grande parte das músicas que cantamos como louvor a Deus, são na verdade diálogos entre homens. Como louvor, devemos cantar as perfeições de Deus, isso é, devemos elogiá-lo; isso é louvar! A verdadeira música de louvor não visa o entretenimento humano, nem mesmo evangelizar, encher a igreja, atrair jovens ou “contemporaneizar”. Ela é estritamente para Deus.

 

Obedecendo essas regras e buscando outras que a Palavra de Deus ensina, certamente, o nosso louvor por meio da música será mais agradável ao nosso Senhor. A Ele toda a glória e louvor!

2 comentários sobre “Qual música é boa para o louvor de Deus?

  1. Evaldo Sant Ana de Almeida disse:

    Em primeiro lugar, muito obrigado pelo texto! Em segundo lugar, uma pergunta. O texto de Ef. 5.19 a expressão “falando entre vós com salmos e hinos…” justifica as canções de exortação, no sentido de ânimo e encorajamento? Que devem ser dirigidas a Deus fica claro no mesmo verso.

    1. joaoeju disse:

      Caro Evaldo,
      Obrigado pelos teus comentários.
      Embora muito já se tenha escrito sobre as diferenças entre esses termos, é muito difícil encontrar qualquer diferença que realmente subsista. Parecem termos sinônimos usados intercambiavelmente, como acontece em alguns salmos.

      Veja diversas opiniões:

      http://www.biblegateway.com/resources/reformation-study-bible/Col.3.16
      https://bible.org/passage/316/Ephesians
      http://www.soniclight.com/constable/notes/pdf/ephesians.pdf
      https://www.google.com/search?q=psalms%2C+hymns%2C+and+songs+ephesians&btnG=Pesquisar+livros&tbm=bks&tbo=1&hl=pt-BR#hl=pt-BR&q=commentary+ephesians+psalms%2C+hymns%2C+and+songs+&tbm=bks

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