Profetas, Sacerdotes e Reis no AT, no NT e na Igreja: Um Estudo sobre os Ofícios de Cristo aplicado aos cristãos

Esse é o post com mais acessos em nosso website. Isso mostra que existe um grande interesse nesse assunto entre os cristãos brasileiros. Devido a isso, resolvemos gravar o vídeo abaixo. Em breve disponibilizaremos outro vídeo e mais conteúdo a respeito desse assunto tão importante e prático!

 

1) Profetas, Sacerdotes e Reis no Antigo Testamento

Havia no Antigo Testamento três ofícios principais, três classes de pessoas que exerciam funções diferentes na nação teocrática de Israel. Eram eles: os profetas, os sacerdotes e os reis.

Profeta – era a boca de Deus ao povo (ex. Êxodo 7.1; 20.18-19). Podemos dizer que Moisés foi o primeiro grande profeta (Abraão: Gn 20.7): com ele Deus falava face a face (Ex 33.11) e através dele deu a Lei (doutrina, instrução que leva à vida) ao Seu povo. Portanto, o profeta é aquele que atua como mediador entre Deus e o povo, proclamando a vontade e o caráter de Deus ao Seu povo. Ainda em Êxodo, acha-se um importante texto que prevê o aparecimento de outro profeta semelhante a Moisés e regulamenta como avaliar as credenciais de alguém que se diz profeta: Deuteronômio 18.15-22. É elucidativa a concepção de Calvino sobre o ofício dos profetas: “É costumeiramente feito um grande número de declarações e dissertações sobre o ofício dos Profetas. Mas, na minha opinião, o caminho mais curto para tratar deste assunto é relacionar os Profetas à Lei, de onde eles derivam sua doutrina como um rio de uma fonte.” (CALVINO, Preface to Commentary on Isaiah, 1998, p. 21). Portanto, mais do que prever o futuro, a tarefa básica de um profeta sempre foi revelar de forma falada (e vivida) a vontade de Deus a Israel.

Sacerdote – o segundo ofício principal que aparece na história da nação Israel é o ofício sacerdotal. Na verdade, antes que houvesse nação, há o aparecimento do primeiro e maior, no entanto obscuro, sacerdote bíblico: Melquisedeque (Gn 14.17-20). É em Arão, entretanto, que vemos o ofício ser desenvolvido e organizado por Deus sobre a nação. O sacerdote usava alguns instrumentos no desempenho de seu ofício: O sacerdote era aquele que representava o povo diante de Deus e isso ficava claro em suas vestes (Êx. 28.9, 17-21, 29). Ela era também aquele que consultava a Deus quando o povo tinha dúvidas (Êx 28.30; Lv 8.8), bem como aquele que agia como juiz representante de Deus (Nm 5.21-22). O sacerdote usava uma espécie de tiara com a inscrição santidade ao Senhor (Êx 28.36, 39.30), dependia da ação do Espírito Santo para desempenhar seu ofício (Êx. 28.41; 29.7) e precisava ser puro por meio dos sacrifícios que fazia por si mesmo antes de atuar pelo povo (Êx 29.10, Lv 16.11). É interessante que além desses homens separados por Deus serem sacerdotes, havia um sentido em que todo o povo de Israel deveria servir de sacerdote às nações (Êx 19.6, Os 4.6). O Antigo Testamento previa de forma tênue que a uma ordem sacerdotal superior à de Arão seria instaurada no futuro (Sl 110, Hb 7).

Rei – o ofício real não começou em Israel de mesma forma que os outros dois, mas em rebeldia a Deus. Deus havia legislado sobre o ofício real (Dt 17.14-20), mas foi num contexto de rebeldia, após o difícil período dos juízes (homens escolhidos, levantados e capacitados por Deus com o Espírito) que a nação pediu a Samuel: “Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações” (Cf. 1Sm 8.5-22). Apesar de um mal início com Saul, enquanto os reis cumpriram o que Dt 17 regulamentava, tudo transcorreu bem, mas foi quando se afastaram da Lei de Deus, sofriam as conseqüências ali previstas. Havia também uma promessa de um rei, filho de Davi, que viria no futuro: 2Sm 7.12-13, Is 55.3.

Conclusão: os profetas, sacerdotes e reis do Antigo Testamento tinham seus ministérios completamente vinculados à Lei: o profeta a pregava, o sacerdote a aplicava pessoal e especificamente e o rei a fazia cumprir nacionalmente.

2) Jesus Cristo como Profeta, Sacerdote, e Rei

João Calvino popularizou a noção de Cristo como aquele que cumpre os três ofícios do Antigo Testamento (Institutas II.15). Desde então, muito outros têm escrito sobre o assunto. Deve-se notar a priori o nome Cristo. Este nome significa literalmente ungido, exatamente o ato que unia os três ofícios do AT. Os catecismos de Westminster (BCW e CMW) nos ajudam a entender como Cristo desempenhou os três ofícios:

BCW  – P. 23. Que funções exerce Cristo como nosso Redentor? R. Cristo, como nosso Redentor, exerce as funções de profeta, sacerdote e rei, tanto no seu estado de humilhação como no de exaltação. Ref. At 3.22; Hb 5.5-6; Sl 2.6; Jo 1.49.

CMW – 42. Por que o nosso Mediador foi chamado Cristo? O nosso Mediador foi chamado Cristo porque foi, acima de toda a medida, ungido com o Espírito Santo; e assim separado e plenamente revestido com toda autoridade e poder para exercer os ofícios de profeta, sacerdote, e rei de sua igreja, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação. Sl 2.6; Mt 28.18-20; Lc  4:14,18,19,21; Jo 3:34; At. 3:22; Hb 4:14,15;5:5,6; Ap 19:16; Is 9:6.
CMW – 43. Como exerce Cristo o ofício de profeta? Cristo exerce o ofício de profeta, revelando à igreja, em todos os tempos, pelo seu Espírito e Palavra, por diversos modos de administração, toda a vontade de Deus, em todas as coisas concernentes à sua edificação e salvação. Jo 1:1,4,18;20:31; II Pe 1:21; II Co 2:9,10; Ef 4:11-13. [Mateus é um dos livros bíblicos que mostra de maneira mais completa o Jesus Cristo como profeta]
CMW – 44. Como Cristo exerce o ofício de sacerdote? Cristo exerce o ofício de sacerdote, oferecendo-se a si mesmo uma vez em sacrifício, sem mácula a Deus, para ser a propiciação pelos pecados do seu povo, e fazer contínua intercessão por esse mesmo povo. Hb 2:17;7:25;9:14,28. [Hebreus é o livro mais claro em mostrar o sacerdócio perfeito de Jesus]

“No Antigo Testamento, os sacerdotes eram designados por Deus para oferecer sacrifícios. Eles também ofereciam orações e louvores a Deus em favor do povo. Ao agir assim “santificavam” as pessoas, ou tornavam-nas aceitáveis à presença de Deus, se bem que de forma limitada no período do AT. No Novo Testamento, Jesus tornou-se o nosso grande sumo-sacerdote. Esse tema é abordado na carta aos Hebreus”. (GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, 1999, p. 525)

 

CMW – 45. Como Cristo exerce o ofício de rei? Cristo exerce o ofício de rei, chamando do mundo um povo para si, dando-lhe oficiais, leis e disciplinas para visivelmente o governar; concedendo a graça salvadora aos seus eleitos; recompensando sua obediência e corrigindo-os em conseqüência de seus pecados; preservando-os e sustentando-os em todas as suas tentações e sofrimentos; restringindo e subjugando todos os seus inimigos, e poderosamente ordenando todas as coisas para a sua própria glória e para o bem de seu povo; e também tomando vingança contra os que não conhecem a Deus nem obedecem ao Evangelho. Sl 2:9; Is 55:5; Mt 18:17,18;25:34-36;28:19, 20; Jo 10:16,27;  At 5:31; 12:17; 18:9,10; Rm 2:7;14:11;8:28,35-39; I Co 5:4,5; 12:9, 10, 28; 15:25; II Co 12:9,10;  Ef 4:11,12;  I Tm 5:20; Tt 3:10; II Ts 1:8; 22:12; Cl 1:18; Hb 12:6,7; Ap 3:19. [O reinado de Cristo pode ser visto de forma gloriosa em Apocalipse]

 

 

3) O Cristão como Profeta, Sacerdote e Rei

E nós? Somos convocados por Deus para seguir os passos de Jesus Cristo (João 13.15; 1Pe 2.21; 1Jo 2.6) Isso implica que devemos ser profetas, sacerdotes e reis, aliás, 1Pedro 2.9 deixa isso claro chamando-nos de sacerdócio real a fim de proclamarmos! Se todos os crentes na nova aliança são ungidos (Atos 2), o que devemos fazer, então, para cumprirmos tão grande vocação?

Profetas – o profeta fala. Ele é o arauto do Rei. Somos chamados para exercer o papel de boca de Deus dentro e fora da Igreja. Profeta é aquele que anuncia a Lei (vontade, instrução) de Deus ao povo ou pessoalmente. Portanto, como profetas, devemos levar conhecimento de Deus aos que não o tem (Atos 17.16-33), mensagem de arrependimento aos pecadores, em público ou particular (Mateus 18.15, Atos 2.38; 3.19), palavras de ânimo e esperança aos desanimados e fracos (1Ts 4.18; 5.14).

Sacerdote – O sacerdote sacrifica. No Antigo Testamento a ordem ao sacerdote era sacrificar um animal para que pelo derramamento de sangue (apontando para Jesus) houvesse remissão de pecados. Não há mais necessidade de sacrificarmos ovelhas e bodes, qual é, então o nosso sacerdócio? Seguindo os passos de Cristo o nosso sacerdócio é de auto-sacrifício, o sacrifício de nós mesmos para Deus (Rm 12.1), pela nossa família (Ef 5.25), pelos irmãos (1Jo 3.16) e até mesmo pelos desconhecidos (Lucas 10.25-37). Ser sacerdote é negar a si mesmo (Mateus 16.24), buscar santidade (1Pedro 1.16) e confessar uns aos outros os pecados e orar (1Tessalonissenses 5.17, Tiago 5.16). Devemos também oferecer sacrifícios de louvor e praticar o bem em mútua cooperação (Hebreus 13.15-16).

Rei – Talvez o que soe mais estranho para nós é que devemos exercer o ofício de reis. Como devemos exercer nosso papel de reis? Dentre os principais objetivos de Deus na criação do homem estava o dominar sobre terra, mar e ar (Gênesis 1.28). Esse domínio foi perdido pelo homem na Queda, mas em Cristo, há a possibilidade de novamente exercermos nosso papel. Devemos, portanto, lembrar que os reis tinham função de governar, preservar e fazer justiça nos parâmetros da Lei de Moisés, assim, nós, em todos os contextos em que Deus nos coloca em posição de governo (lar, igreja, trabalho, sociedade) devemos nos lembrar que somos os seus “gerentes” (como Adão) fazendo para a glória de Deus. Ainda como Adão, também somos chamados para cultivar e guardar a Criação de Deus (Gn 2.15: Ecologia Cristã). Temos sido colocados sobre o pouco, sejamos fiéis e receberemos muito (Mt 25.14-30). Em Cristo estamos assentados nos lugares celestiais (Ef 2.6). E assim como o reinado de Cristo, patente na igreja, mas escondido no universo, se tornará patente em sua vinda, o nosso papel de reis também será evidenciado para todos os olhos (Ap 22.5, 3.21 e 1Coríntios 6.2-3).

Que Deus faça de nós, verdadeiros profetas, sacerdotes e reis, seguindo os passos do nosso Mestre e Senhor Jesus.

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